SPDM - Álcool e Drogas

Os tipos de consumo de drogas entre adolescentes

Nesta semana, vamos conversar um pouco sobre padrões de uso de drogas na adolescência. É muito difícil estabelecer um ponto de corte entre um comportamento funcional e um patológico. Qual o momento exato em que o uso de droga deixa de ser experimental e passa a ser problemático, por exemplo. Essa transição é sempre motivo de discussão entre pesquisadores e especialistas. Entretanto, é muito importante que haja um critério para que se possa uniformizar a linguagem, prevenir a evolução e estabelecer uma intervenção.

A primeira consideração é que, para adolescentes, o uso de qualquer droga de ação no sistema nervoso central é potencialmente perigoso. Não existem evidências científicas suficientes que demonstrem qual é o impacto do uso de substâncias psicoativas em um cérebro que está em formação. Alguns dados epidemiológicos apontam que, quanto mais cedo se dá o uso de droga, maiores são as chances de que esse uso evolua para dependência. É fácil entender o porquê: a tendência a experimentar novos comportamentos, a necessidade de criar uma identidade própria, a falta de experiência, a baixa capacidade de avaliar os riscos, a maior tendência à impulsividade, entre outras características, tornam o jovem mais vulnerável aos problemas relacionados ao uso de drogas.

Outro ponto a ser considerado antes de falar dos padrões de uso propriamente é que o uso de droga pode ser avaliado em dois eixos diferentes. O primeiro eixo é o do comportamento de uso, que compreende a relação que o adolescente estabelece com a droga: em quais circunstâncias ele usa, qual é a avaliação que ele faz sobre a droga e sobre os efeitos, qual é a frequência de uso e qual é a intensidade da vontade de usar. No segundo eixo estão problemas que decorrem do uso, por exemplo: se o adolescente ficou distraído na aula, se o desempenho escolar caiu e se ele ficou negligente com as obrigações, mudando seu padrão de funcionamento anterior.

Com base nesse conceito, podemos então tentar estabelecer os tipos de consumo e sua evolução. O uso experimental é o primeiro passo. Pode ser definido como o primeiro contato que o adolescente tem com a droga. O levantamento nacional sobre o uso de drogas no Brasil realizado em 2012 (Lenad 2012) mostrou que 4% dos adolescentes brasileiros haviam experimentado maconha e 3% deles haviam experimentado cocaína; 62% dos brasileiros que experimentaram maconha e 45% dos que experimentaram cocaína o fizeram antes dos 18 anos; 17% dos adolescentes que haviam utilizado maconha no último ano experimentaram a droga na escola. Para o álcool, os números são muito mais alarmantes. O levantamento anterior, realizado em 2006, mostrou que 34% dos adolescentes haviam experimentado álcool, sendo que 8% deles bebiam frequentemente (de uma a quatro vezes por semana). Ou seja, os números mostram que o uso experimental da droga na adolescência é algo extremamente preocupante para essa faixa etária.

A segunda categoria é o consumo problemático. É muito difícil dizer qual é a frequência de uso para que ele seja considerado problemático. Assim, a definição de uso problemático é qualquer uso, em qualquer quantidade e frequência, que tenha resultado em problemas de ordem psicológica, médica, escolar, social ou familiar. Assim, um uso experimental pode provocar um acidente ou desencadear um surto psicótico e, portanto, será um uso problemático. É claro que o aumento da frequência aumenta os riscos. O Lenad 2012 mostrou que 3% dos adolescentes (o equivalente a 470 mil pequenos brasileiros) haviam usado maconha no último ano e 2% (o equivalente a 244 mil pessoas), cocaína.

Quem serão os mais vulneráveis? Quem serão aqueles cujo uso vai desencadear surto psicótico? Como é possível saber se o uso de álcool em binge (uso em grande quantidade em curto espaço de tempo) vai provocar um acidente? Não é possível saber. Os pesquisadores ainda tentam correlacionar alguns fatores da história de vida pessoal com o maior risco de vir a ter problemas. A presença de doenças psiquiátricas, como psicose, na história familiar pregressa, o nível de impulsividade dos adolescentes, a ausência de religiosidade, a falta de suporte social e familiar são alguns fatores que, se presentes, aumentam os riscos.

É importante salientar que a intenção de uso recreacional não extingue o risco. Dizer que “só usei para experimentar”, “só uso de vez em quando”, “só uso em situações eventuais” expressa a intenção do uso, mas não minimiza em nada o risco. O problema é que adolescentes não são bons em estimar riscos. De quem é essa responsabilidade? Dos adultos. Portanto, adolescentes com pouco suporte dos adultos, que não são acompanhados de perto por um adulto, são muito mais vulneráveis.

A visão dos adolescentes sobre o mundo é ainda muito parcial. Pela própria falta de experiência, eles tendem a acreditar que o mundo se resume ao grupo de sua convivência. Se eles convivem com um grupo cujas atitudes em relação ao uso são positivas e no qual muitos usam droga, eles tendem a achar que todo mundo usa.

Embora os critérios para dependência não sejam próprios para os adolescentes, alguns deles conseguem preencher tais critérios, o terceiro tipo de consumo. Quando isso acontece, a gravidade de uso em geral é muito alta e o nível de problemas também. Para classificar uma pessoa como dependente, ela precisa: (1) usar em uma frequência maior do que ela gostaria; (2) deixar de fazer outras atividades em razão do uso; (3) apresentar tolerância, ou seja, ter poucos sintomas de intoxicação mesmo fazendo uso em grande quantidade; (4) apresentar sintomas de síndrome de abstinência quando não usar; (5) ter fissura (vontade subjetiva de usar); (6) manter o uso a despeito dos problemas; (7) desenvolver uma memória metabólica e neurológica da dependência, de modo que, se a pessoa parar de usar por um tempo e tiver uma recaída, toda a síndrome de dependência se reinstala rapidamente. No Lenad, um em cada dez adolescentes que consumiam maconha frequentemente apresentava critérios para dependência, por exemplo.

O que fazer? É possível prevenir? Como tratar? Onde se podem tratar os adolescentes hoje no sistema público?

Vamos discutir isso nos próximos posts.

Claudio

Dr. Cláudio Jerônimo da Silva – psiquiatra e Diretor Técnico do UNAD

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