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Maconha e ‘novas’ psicoses

Maconha e ‘novas’ psicoses

Existe uma associação entre maconha e psicose, e leigos e médicos sabem disso. É relativamente fácil identificar um transtorno psicótico transitório induzido por maconha. Os sintomas têm relação com o uso da substância e se desenvolvem dentro de um mês após o uso ou durante a intoxicação. Classicamente se apresentam como delírios (ideias persecutórias), alucinações auditivas, prejuízo da crítica e agitação psicomotora, e melhoram com a abstinência.

Também é fácil reconhecer quando a maconha está associada à esquizofrenia. Após um período de uso, principalmente na adolescência, o paciente apresenta um surto psicótico típico — com delírio, alucinação, discurso desorganizado, embotamento afetivo, disfunção social progressiva — e, ao longo do tempo, piora dos sintomas negativos, tais como embotamento, alogia (falta de raciocínio lógico) e avolição (falta de motivação para tarefas do cotidiano). Esse é um quadro grave, incurável e totalmente incapacitante.

Mas o que temos observado na clínica é um quadro um pouco diferente, ainda não alcançado pelos artigos acadêmicos, pouco divulgado, mas igualmente grave. Essa psicose é caracterizada pelos seguintes sintomas: ideias de referências que não são delirantes, mas interpretações incorretas de incidentes particulares como se tivessem um significado especial; a associação entre as ideias são levemente frouxas, mas o pensamento não chega a ser desagregado, de formaque existe uma lógica no discurso, mas uma análise mais pormenorizada mostra certa fragilidade e incoerência. Aos olhos dos menos atentos, leigos e dos menos instruídos, esses pacientes podem parecer muitos inteligentes porque se utilizam de palavras difíceis, referências vagas para construir discursos filosóficos que, se explorados com detalhes, se mostram vazios e contraditórios. E não se trata de um transtorno de personalidade esquizotípica, porque não é um padrão persistente, mas um quadro instalado, claramente relacionado ao uso de maconha e que melhora com o uso de antipsicóticos e com a abstinência.

Não raramente esse discurso filosófico vago de associação frouxa e autorreferente tem conteúdo relacionado à maconha. Recentemente, um paciente discutia comigo sobre a legalização da maconha. O conteúdo do discurso era aparentemente coerente, mas no aprofundamento da discussão ele associou o quadro do globo terrestre na parede do meu consultório com a Maçonaria, com a minha posição sobre a legalização da maconha e com a medicação que eu tentava lhe prescrever. De maneira bastante sutil, quase lógica, que não era delirante, porque não mantinha a convicção de um delírio, nem era desagregado porque se esforçava para manter uma lógica, que era frágil, mas um tanto mágica. Não tinha qualquer outro sintoma psicótico como alucinações, irradiação de pensamento ou outros sintomas schneiderianos. A crítica estava muito prejudicada. A família percebia que o paciente não estava mais com o funcionamento normal, não tinha o mesmo rendimento, algumas vezes o discurso parecia incoerente, mas todos atribuíam a uma simples discordância de opinião a respeito do uso e da legalização da maconha. Não captavam essas alterações mais sutis. Os amigos no máximo achavam-no um pouco excêntrico no último mês, mas não o suficiente para o caracterizarem como um doente mental.

A maconha parece fazer isso: distorcer a psicopatologia clássica mantendo o mesmo padrão devastador das psicoses tradicionais.

 

Claudio

Dr. Cláudio Jerônimo da Silva – psiquiatra e Diretor Técnico do UNAD

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