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Entendendo a endometriose

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A endometriose, para muitas mulheres vista como a causa eminente da infertilidade, é apresentada e desmistificada aqui pelo Dr. Jorge Haddad-Filho, médico do Serviço de Reprodução Humana do Hospital São Paulo.

Conheça-a e descubra como tratá-la!

“Há três anos, comecei a sentir dores na barriga, que foram piorando cada vez mais. No começo, sem saber o que eu tinha, cheguei a pensar que estava com inflamação de urina, do nervo ciático ou problemas intestinais. Comecei a notar que as dores pioravam pouco antes da menstruação, quando sentia uma cólica insuportável. Várias vezes fui levada ao Pronto-Socorro para ser medicada, em geral com injeções na veia, porque a dor era muito forte. Nessas ocasiões, a menstruação vinha com muito sangue.

Decidi, então, procurar um médico especialista e, para minha surpresa, foi diagnosticada a endometriose. Percebi que os medicamentos que tomava para cólica não faziam mais efeito. Os problemas foram aumentando: desde a dor nas relações sexuais até as cólicas intensas durante a evacuação. Sob orientação do médico, comecei a tomar anticoncepcionais para evitar a menstruação, o que também suprimia parcialmente as cólicas insuportáveis. O mais difícil era ter que conviver com a dor e não ter disposição para fazer coisas que antes eu fazia.
Pior ainda: foi descoberto que a endometriose tinha gerado problemas nas minhas trompas e eu não conseguiria engravidar naturalmente, apenas por meio de fertilização in vitro, coisa que nunca pensei que pudesse ocorrer comigo...”

O relato acima é de uma mulher portadora de endometriose. A descrição evidencia claramente que a endometriose dói. A dor abdominal é sintoma-chave dessa doença, e podem ocorrer também dores nas costas. As dores pioram durante a menstruação e também durante as relações sexuais. Nos casos mais graves, a dor é praticamente constante e pode chegar a comprometer as atividades sociais da mulher, além de comprometer as funções digestivas e urinárias. Além disso, a endometriose está associada à infertilidade feminina. Por isso, dores abdominais persistentes, na mulher, devem ser pesquisadas para que se possa afastar esse diagnóstico. Embora as estatísticas sejam variadas, acredita-se que entre 10% e 15% das mulheres em idade reprodutiva possam ter endometriose.

A endometriose é o crescimento de células parecidas com as do endométrio fora do útero. Lembremos que o endométrio é a membrana que reveste a cavidade do útero e descama durante a menstruação. Ocorre que, em alguns casos, durante a menstruação, o endométrio pode ser expelido para as trompas (menstruação retrógrada) e se fixar na própria trompa, nos ovários ou dentro da barriga (em uma membrana chamada peritônio), produzindo uma inflamação, que é a endometriose. Teoricamente, isso pode acontecer em qualquer mulher, mas nem todas têm endometriose. Por isso, acredita-se que deva haver algum componente bioquímico (provavelmente imunológico) que permita que o endométrio implante-se no interior do abdômen e produza a inflamação. Outra ideia é a chamada metaplasia peritonial: algumas células normais do peritônio se transformariam em células de endometriose. Seja qual for a origem, é doença que produz um grande prejuízo para a vida da mulher.

O primeiro aspecto prejudicial, como já colocado, é a dor incapacitante. Mulheres anteriormente ativas sentem queda no seu rendimento no trabalho e, também, perda de qualidade no relacionamento com os companheiros. O segundo aspecto, igualmente tenebroso, é a possibilidade de alteração genital que impossibilite a gravidez. De fato, a endometriose é um dos agentes mais importantes na produção de lesões tubárias, que vão desde alterações na contração das tubas, passando pela formação de cicatrizes que impedem o seu funcionamento normal, até a obstrução completa. Essas lesões dificultam ou até impossibilitam a captura do óvulo pela tuba e, como consequência, a gravidez natural. Se a endometriose ocorrer nos ovários, então é possível que a formação dos óvulos, a ovulação e a fase pós-ovulatória do ciclo menstrual sejam alteradas negativamente, configurando um segundo problema que atinge diretamente a fertilidade da mulher. A endometriose que implanta no peritônio próximo aos intestinos ou à bexiga resulta em alterações na micção e na evacuação, em geral acompanhadas de dor.

Quando o quadro doloroso sugere a presença da doença, o exame de sangue de Ca125 é um auxiliar diagnóstico importante, já que seu valor aumenta muito na endometriose. No entanto, o diagnóstico definitivo, em geral, é feito por meio de cirurgia, na qual as lesões suspeitas de endometriose são retiradas e analisadas em laboratório. Também podem ser utilizadas, como exames diagnósticos, a ultrassonografia com preparo intestinal e a ressonância magnética, em especial nos casos de endometriose profunda. A quantidade de lesões, sua localização e sua profundidade permitem classificar a endometriose em quatro grupos, o que é utilizado como orientação para o tratamento: mínima, leve, moderada e grave.

A endometriose é estimulada pelo hormônio feminino estradiol, produzido pelos ovários durante o ciclo menstrual. Por isso, uma das táticas de tratamento da doença é a de suprimir ou, ao menos, diminuir a concentração de estradiol no sangue da mulher. Isso é conseguido pela utilização de anticoncepcionais de forma contínua, progestágenos ou inibidores da secreção de hormônio folículo-estimulante (FSH) da hipófise. O tratamento clínico tem como objetivo reduzir a dor e restituir, até onde for possível, a qualidade de vida da mulher. Há ainda a possibilidade de tratamento cirúrgico da endometriose, que consta da remoção de focos ativos da doença. A indicação de tratamento cirúrgico é feita após análise criteriosa de cada paciente e, ainda aqui, valerá muito a experiência do médico assistente.

Em relação à reprodução, se houver lesão nas tubas, deve ser realizada a fertilização in vitro. Se não houver essa lesão, poderá ser realizado procedimento de inseminação intrauterina se os outros fatores forem adequados. A gravidez implica a produção muito alta de progestágenos, de modo que a endometriose se reduz ou mesmo desaparece após o nascimento do bebê. Essa é a razão pela qual a gravidez também é um tratamento para a endometriose.

Se há suspeita da doença, a melhor ideia é consultar um médico especialista e realizar o tratamento, com boa orientação e o mais cedo possível. Isso possibilita uma grande melhora das dores e evita a progressão da doença, criando condições mais favoráveis para a reprodução (inclusive natural, em alguns casos). Agindo assim, domesticamos o dragão da endometriose, substituindo o cinzento das limitações pelo colorido da boa qualidade de vida.

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